"Botaram fogo na minha plantação", diz desalojado por hidrelétrica do Madeira
08:00, 30/03/2011
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(Foto: Rogério Cassimiro)
O agricultor Jacob Belarmino mora de favor num quartinho de dimensões modestas na cidade de Porto Velho, capital de Rondônia. Há oito meses, ele e sua família de seis pessoas se amontoam em colchões no chão e no único beliche do cômodo. Comem o que a solidariedade dos vizinhos lhes permite. Sua condição já foi mais abastada. Belarmino diz que, no passado, chegou a ganhar cerca de R$ 2 mil por semana com a venda da banana que nascia em suas terras. Sem contar o dinheiro do gado, dos porcos, das cabras. Para os padrões amazônicos, tinha uma vida rica. Num piscar de olhos, tornou-se quase miserável.
A família de Belarmino é só uma das milhares atingidas pelas obras da hidrelétricas do rio Madeira, nos arredores de Porto Velho. As construções atraíram dinheiro e empresas para a região. Geraram empregos. Aumentaram a arrecadação de impostos. Com o progresso, porém, chegou também o aumento da violência, do uso de drogas e da prostituição. A explosão da população. O caos no sistema de saúde. E esses são só os impactos indiretos.
As obras atingiram milhares de pessoas que viviam à beira do rio. As usinas vão alagar uma área próxima de 600 km2. Não é muito, comparado aos reservatórios de usinas construídas no passado (Tucuruí, inaugurada nos anos 80 no Pará, inundou quase 3 mil km2). A redução dos reservatórios é possível graças à tecnologia de fio d’água, um avanço na engenharia. A despeito do alagamento sumário, os problemas desta etapa são grandes. Nas margens afetadas vivem cerca de 2.300 famílias. Estão ali há anos, próximas da floresta, de suas plantações e de igarapés. É um modo de vida singular – e difícil de ser reproduzido.
Em muitas casas, o rio passava próximo ao quintal. O contato com o verde se dava em tempo integral. Há muitos relatos de moradores sobre a tristeza vinda com a mudança. Eles dizem que alguns idosos caíram em depressão. Uns foram embora. Outros morreram de tristeza. Essas pessoas não abandonaram só suas casas. Deixaram para trás uma história, um jeito de existir. A situação de Belarmino é ainda mais crítica. Era dali que ele tirava o sustento da família.
Belarmino vivia com a família em uma casa de palafita em uma ilha de 450 hectares (ou 450 campos de futebol) no rio Madeira. Havia 20 anos que ele estava ali. Seus antepassados chegaram há 100 anos. Ele diz que os bisavós estão enterrados às margens do rio. Era posseiro, mas tinha a documentação do INCRA que atesta o direito adquirido do imóvel. Além da floresta e da vida tranquila, o que tinha de mais valioso na propriedade era 22 mil pés de banana.
O agricultor diz que a Santo Antônio Energia, consórcio responsável pela usina que vai encher de água suas terras, avaliou seu imóvel considerando todas as bananeiras. O tamanho da indenização se dá de acordo com o valor do imóvel e das benfeitorias que há nele, como plantações, casa de farinha, floresta em pé para ser cortada e vendida. No dia 10 de julho do ano passado, um sábado, Belarmino estava em Porto Velho a trabalho quando recebeu uma ligação. Era um amigo contanto que dezenas de homens e máquinas tinham entrado na ilha. Estavam derrubando árvores, queimando os plantios (as bananeiras, inclusive). “Botaram fogo na minha plantação. Dois dias depois, eles apareceram na minha propriedade dizendo que ela tinha bem menos pés de banana, para baixar o valor da indenização”, afirma Belarmino. “O primeiro laudo dizia 22 mil. O segundo, 13 mil pés, sendo que 60% destes estariam doentes. Eles querem me pagar muito menos que o justo”.
A família precisou deixar o local. Afugentados pelo fogo, os animais começaram a invadir a casa. Sem as árvores, uma barreira natural que ajuda a amenizar os ventos das tempestades, as paredes ficaram vulneráveis. Belarmino se mudou para a residência de um amigo, depois de outro. A peregrinação já dura oito meses. Sem renda, eles agora vivem de doações de cestas básicas. A empresa admite que cortou sem intenção alguns pés de banana. “Durante a limpeza [desmatamento autorizado pelo Ibama para a construção das usinas] da ilha andamos cortando umas bananas dele”, afirma Carlos Hugo Annes de Araújo, diretor de sustentabilidade da Santo Antônio Energia.
Depois de um longo impasse, Belarmino entrou na Justiça contra a Santo Antônio Energia. A empresa fez o mesmo. Araújo diz que o caso da família é isolado. “Das 1.700 famílias a serem realocadas por causa da hidrelétrica, somente 100 entraram com processos judiciais”, diz o diretor. “Cinquenta já foram julgados, com 100% de aprovação. Ganhamos todas as causas”. Na semana passada, um juiz teria dado o veredicto sobre o caso de Belarmino. A companhia ganhou mais uma vez.
Por problemas deste tipo, as obras do Madeira são hoje o maior foco de desmatamento na Amazônia. E não representam um bom exemplo para a polêmica hidrelétrica de Belo Monte.
http://colunas.epoca.globo.com/planeta/
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